fogos que se lêem, escritos que apagam o fogo...
8 de setembro, 2004
O NOVO "PALAVRAS NA LAMPARINA"
Viva!
O "Palavras na Lamparina" esteve de férias (GRANDES), mas prepara-se para voltar.
Estou a preparar uma nova imagem para o blog, que, possivelmente, irá mudar de poiso, visto que o Sapo tem dado poucos motivos de confiança na capacidade de suportar todos os que aqui se alojaram. Ou não dá para gerir, ou não dá para comentar... Enfim!
O que importa é que a Lamparina vai voltar a arder, agora que já se adivinham os dias mais frios, e nada como uma leitura ao fim do dia.
Aqueles que fazem parte da mailing-list podem ficar descansados porque irão recebendo notícias acerca da data do novo blog. Os que não fazem parte, podem sempre enviar-me um mail para ficarem listados, ou então continuar a passar por cá para se manterem a par das novidades.
Previsão? Talvez na primeira quinzena de Outubro.
Um grande abraço a todos. E até breve.
Rui Guerreiro
29 de julho, 2004
ESTÓRIAS (29.07.04)
Infância
Havia o avô e havia a avó. Havia ele e as galinhas. Havia uma gineta que comia as galinhas de noite e não havia mais ninguém. O avô cavava a terra de manhã à noite, e ele gostava de ouvi-lo fazer aquele ruído de cansaço e prazer que acompanhava cada enxadada. Gostava de vê-lo cuspir na mão, para segurar o cabo com maior firmeza, e imitava-o. Dizia, vou cavar como tu quando for grande. O avô fazia uma pausa, apoiava o cotovelo no cepo da enxada e limpava o suor da testa com a boina. Depois sorria e dizia-lhe, não duvido que sejas capaz, mas assim que tiveres idade vais é para a escola. E ele resmungava, furioso. Trepava a uma laranjeira, colhia a fruta mais alta, e ficava no cimo, sorvendo o suco ora doce ora amargo.
Então a avó chamava o avô e dizia-lhe, traz o teu neto, vamos almoçar. Ele descia da árvore, pegava na enxada do avô e insistia, quando for grande vou cavar como tu, não há-de sobrar torrão inteiro nem erva debaixo das árvores. O avô ria e afagava-lhe os cabelos, enquanto ele, desequilibrado pelo peso da enxada, saltitava fintando o velho.
Enquanto a avó deitava a comida nos pratos ele perguntava-lhe, avó, se eu crescer muito e for capaz de cavar como o avô, já não preciso ir para a escola? A mulher lançava um olhar fulminante ao marido como que a dizer, já andaste tu a meter coisas na cabeça do rapaz. O avô respondia encolhendo os ombros, que queres que lhe faça, se não quer ouvir falar da escola.
No fim do dia, quando o avô voltava da horta, ele escondia-se por detrás do pé de uma velha nogueira e saltava-lhe ao caminho. O avô fingia assustar-se e ele soltava gargalhadas estridentes. Tão estridentes que a avó vinha à rua, assustada, ver o que se passava. E o pequeno dizia, amanhã quando acordar vou estar grande e forte como o avô, e hei-de cavar toda esta terra, semear batatas e cebolas e favas e couves que dêem para todo o ano.
Depois o avô morreu. A avó nunca mais foi a mesma. A terra deixou de ser cavada, as ervas cresceram até à altura dos ramos mais baixos, e os torrões eram enormes, tão grandes que mais pareciam rochas. Então veio uma senhora e disse que ele já não podia ficar com a avó, que o levaria para um sítio onde lhe dariam de comer e poderia ir à escola. A avó, embora de coração destroçado, sorriu, por saber que o neto ficaria bem. Ele gritou com a senhora e disse-lhe, não senhor, não irei consigo, tenho de cavar a terra que é do meu avô. E fugiu pela horta fora. Nunca mais ninguém o viu. A avó ficou sozinha, chorou durante meses e morreu de tristeza.
No Verão, quando as laranjeiras começaram a secar, as ervas tornaram-se pasto, e a horta foi devorada pelas ovelhas. Outros verões ardentes queimaram o que restou e o mato invadiu a terra. A cal abandonou as paredes da casa, as traves do telhado cederam, e o céu substituiu-o impunemente.
Um dia ele voltou, já homem. Deparou-se com algo que não conseguia sequer imaginar, e chorou. Procurou a enxada do avô, trocou-lhe o cepo já podre por um novo e cuspiu nas mãos. Soltando um gemido que era um misto de prazer e sofrimento, cavou toda a horta. Não sobrou um único torrão, um pasto que fosse. Depois descansou, sob a sombra da velha nogueira, ainda com folhagem, e adormeceu.
Quando acordou, o avô estava sentado ao seu lado, com a mesma boa cara que tinha no dia em que morreu. Os anos pareciam ter-lhe passado ao lado, e, com a voz ainda firme, elogiou-o, muito bem, vejo que trataste a terra como devia ser. Fiz como o avô me ensinou, respondeu. Fiz como se tivesse aprendido na escola, tive um bom professor. O velho, resignado, contestou ainda, suspirando, mas na escola terias aprendido a ler, a escrever, a tabuada. Avô, os meus livros são estas árvores, da aritmética interessa-me apenas saber a da vida, que é sempre de retirar, menos ontem, menos hoje, menos amanhã, quem sabe, e nada mais me importa.
Ouviram então que a avó os chamava. Traz o teu neto, venham comer. E aquela voz era tão real, o avô era real, a comida no prato era real. Comeu como não comia há anos, e caiu no sono. Sonhou que era pequeno outra vez.
21 de julho, 2004
RIMAS... OU NÃO! (21.08.04)
Os dias nascem do ciúme,
O amor, do nascer dos dias,
Uma letra, de um queixume,
As palavras loucas e vadias
Da boca de um poeta,
No peito de um amante,
Ou de uma ferida aberta,
De um desejo inconstante.
Quero-te tanto que não te quero,
Na corda bamba da paixão
Sem rede, perigo sincero.
Não arrisco ter-te em vão.
Sei onde fica o abismo.
Sei onde acaba a razão.
Ou não sei, apenas cismo,
Se são restos de cinismo
Que escrevem p’la minha mão.
9 de julho, 2004
ESTÓRIAS (09.07.04)
Regressos
Regressar é parar o tempo. Deixar que a vida avance mantendo-nos quedos. É voltar àquele local donde nunca sequer saímos, àquela pessoa que sempre fomos e por momentos largámos esquecida, num qualquer tempo, em que avança por nós a vida, sem regresso.
Percorrer estradas no sentido inverso, onde são planícies rasgadas de arado, nesgas de água parada, o norte, ou o sul, para atingir o local de partida, reconhecer a paisagem, e nela nos completarmos. Voltar por caminhos sempre mais curtos, menos morosos. Ou talvez, por encarados com amena nostalgia, sucedam pela forma tranquila da revisão, como a leitura de uma obra que outrora nos marcou. Tornar por trilhos por nós abertos, veredas que são como a palma das nossas mãos: não é necessário consultá-las para que nos sirvam de mapa, de tão bem as conhecermos.
Regressar é estudar o tempo. Pela lógica silogística. Este último são as premissas, o regresso a conclusão. Partir é abrir o tempo. Voltar é encerrar um ciclo. Logo, regressar é preservar esse período no nosso interior, apreciá-lo, revivê-lo. Ir e vir sem sair do sítio. Viajar pelo que já fomos, retornando ao que somos de momento.
Interiorizar momentos fervorosamente, uma vez, regressar aos mesmos como à recordação de um romance Estival, sempre. Estudar o “eu” que nos caminha interiormente, concluir que é impossível cartografá-lo no seu todo, e regozijarmo-nos por isso. Porque viajaremos sempre pela incógnita, e apenas no regresso nos achamos, com algo novo, ínfimo quanto à grandeza do todo, mas ignoto, inesperado; apetecível, gratificante.
Regressar é condensar o tempo. Aglomerá-lo naquilo que nos compõe. Sermos a própria viagem, a ida e o retorno. Sentirmo-nos o percurso, o meio de transporte, o viajante. Regressar é um recurso inevitável da nossa memória. Porque somos a descoberta, a necessidade da busca, e procurando nos sentimos vivos, vivendo somos livres de partir, e chegar é assistir à jornada, a todas as jornadas.
1 de julho, 2004
ESTÓRIAS (01.07.04)
O abecedário
Há uma terra em que as letras contam, são importantes como a água, são a própria água, porque as bebem em goles. Cada palavra é um gole que mata a sede. Há quem as junte num copo e sacie o desejo com várias frases, pequenos textos. Há quem as beba por prazer, e quem se satisfaça simplesmente por molhar os lábios.
Há lagos de letras, rios e mares, salgados ou doces. Uns tiram-nas da torneira, outros compram-nas engarrafadas, ao litro. Há letras em lençóis, debaixo dos nossos pés, e há letras que caem do céu, dispersas como gotas, sem sentido aparente. Aparente ao princípio. Se formos pacientes, veremos como se organizam e tornam coerentes, como se juntam em pequenos regatos com muito para dizer.
Há quem viva só porque as letras aí estão, para serem bebidas. Alguns ganham a vida a juntar as gotas. Alguns são capazes de transformar um orvalho matinal num riacho fresco em pleno verão. Alguns, só alguns, poderão domar um oceano tempestuoso, dar a volta ao mundo numa jangada feita de frases. Porque os homens são feitos de letras, mas não são capazes de se ordenar em palavras. Uns são apenas vogais, definem-se em cinco pancadas, sem sequer mexer a língua. Outros, consoante, se são sofisticados e sem complexos vernaculistas, usam o «capa», o «dabliu» e o «ipselon», ou, os mais apegados à tradição, que tanto se lêem com «cê» de cão, como com «cê» de sapato. E ainda os que se atrevem a misturar os estilos, a fazer sentido, a tentar descodificar os homens, a dar vida às letras, para que as possam beber.
Há uma terra em que as letras contam, porque são necessárias como o ar, são contadas, são gente, porque as respeitam. Cada palavra é um membro com veias e sangue. Há quem as junte num corpo e as veja crescer e ser pessoa. Pessoas. Há quem tenha orgulho nas palavras que escolhe para o corpo, e quem se contente com duas pernas, dois braços, um par de calças e uma camisola para os cobrir. Há quem seja letra, e quem queira ter letra.
Há vezes em que fechamos os olhos e o negro são letras. Outras há em que os sonhos são palavras, e, quando acordamos, de olhos bem abertos, a realidade são letras. Porque o sonho é possível, como a fábula é possível, por palavras, no escuro. Porque a realidade é inevitável, como os homens são inevitáveis, letras dispersas, na claridade.
Há uma terra em que o escuro e a claridade são um só, pois as letras são água e ar. Em que o sonho e os homens são palavras, porque um é aquilo que os outros querem, e as letras são o elo.
Nesta terra nunca ninguém morreu de sede. Nesta terra respira-se ar fresco.
Pois se cada página é um rio, e cada linha uma brisa.
25 de junho, 2004
ESTÓRIAS (25.06.04)
Os textos da Lamparina têm andado mais "espaçados". Isto deve-se à época de frequências e trabalhos que, felizmente para mim, terminou ontem. Mas também porque tive de dedicar algum tempo à escrita de um conto, precisamente para um dos trabalhos. Foi para a cadeira de Estudos Queirosianos, e consistiu em, a partir de um projecto manuscrito deixado por Eça, incluindo o título, construir um texto ficcional que se aproximasse do espírito do autor. Espero que tenham paciência para lê-lo todo. Aqui fica o resultado, enquanto não sei a nota...
Estudo de Mulher
A alma de Madalena balança, alheada, no interior escuro da carruagem. Vem de ser a mulher estranha que se apoderou de si nos últimos tempos, aquela cujo corpo se refaz, a cada dia, no leito da paixão desabrida do amante. Arde-lhe a cabeça, mas nem sempre assim foi.
De início, o fulgor daqueles encontros aliviava-lhe o peso da rotina conjugal e, durante uma semana, comportava-se e sentia-se como uma crisálida, breve, mas bela e nómada. No Natal anterior, ia para um ano, pela mão do Madeira, seu marido, o jovem Fernandes, moço esbelto e charmoso, entrava-lhe pela casa, pelo seu coração, e desde logo a arrebatou com grande fúria e, com um breve olhar apenas, a tomou sem grande resistência. Ao serão, durante a ceia, enquanto o Madeira exultava com as novas da Europa trazidas por Fernandes, incansável cruzador de além fronteiras, Madalena ardia, ateada por relances insuspeitos e ávidos, lançados pelo olhar do rapaz, por sobre o talher de prata e os cristais do enxoval, oferta da sua falecida sogra. Era como um usurpar de sepulcro, porém impossível de conter. Foi logo no réveillon, poucos dias depois, aproveitando o efeito do champanhe no incauto Madeira, que recebeu de Fernandes um bilhete com a morada de uma alcova longe da cidade e o primeiro beijo.
Seguiram-se semanas de intempérie libidinosa. Se passavam mais de três dias sem que pudesse receber no corpo o corpo do amante, o seu humor confundia-se com fel, gritava com os criados, refugiava-se no quarto pela hora de jantar, sempre com enxaqueca ou afrontamento, e se, por vezes, cedia à palavra de Madeira que a incitava a comer, fazia-o em traje de dormir, despenteada e com ar adoentado. O marido preocupava-se, mas a súbita convalescença que se produzia após uma tarde de lençóis alheios, resgatava-a à enfermidade, e ele, longe de casa e dos deveres conjugais durante grande parte do dia, cansado demais para os cumprir de noite, mentalmente exausto pela função diplomática no ministério, não chegou a pesar devidamente a condição súbita da sua esposa.
- O teu trabalho acabará por me demolir. – Suspirou, Madalena, certa noite, já na cama, enquanto Madeira dormitava sobre as últimas colunas do Diário de Notícias.
Apesar disso, amava-o, respeitava-o, tinha-lhe admiração. Era um intelectual, inteligente, cavalheiro, bem-parecido, e essa incapacidade de se distanciar dele, apesar de não ser correspondida como desejava, e de encontrar no Fernandes o que definhava no seu casamento, fez, ao fim de algum tempo, com que o ninho de amor ilegítimo começasse a perder a magia, e se tornasse um mero hábito, um reles vício corporal que ela desprezava no instante seguinte, aquilo que de início fora um fogo intenso, resumia-se agora ao riscar de um fósforo, à brevidade de uma chama. O lugar de Fernandes, outrora porto de abrigo, não passava já de um pobre remendo. O toque, o cheiro, a proximidade do amante, se num segundo a consumia de desejo, logo a enojava e causava fastio e repulsa, e tudo quanto desejava era correr para casa, para os braços do marido que a desprezava, mas que amava. Hoje, foi assim.
No ar fechado da carruagem, sufoca, enjoa, está quente e cheira ao corpo de Fernandes. É um alívio, quando ouve o cocheiro avisar que chegam ao Rossio. Ali se costuma apear, discretamente, entrar noutra carruagem após uma breve caminhada pelo largo, desta feita lentamente, com um aceno despreocupado, mas efusivo, a algum transeunte conhecido, para que a veja bem e comente depois com o seu marido:
- Vi a sua esposa, subindo no Rossio.
- Sim, sim. Gosta de passear-se, a pobre, faz-me sentir bem que o faça, sempre sozinha lá por casa o dia inteiro. Que há-de uma mulher fazer, tendo um marido desatento como eu, a não ser calcorrear as ruas e aliviar a solidão com algumas compras. – Responderá o Madeira.
Mas não hoje. Nesta tarde cálida de Julho, é uma Madalena lívida e alheada que atravessa o largo, sem tão pouco abrir o chapéu-de-sol, e entra de rompante na carruagem dando ordem de marcha. Não vem mais enojada de si do que das outras vezes, nem sequer é o resto de odor do concubino que a incomoda. Foi o Fernandes que recebeu convite de seu marido para lá ir jantar a casa.
- Não podia recusar mais uma vez, tens de compreender. – Argumentou, perante a reacção de Madalena à notícia. – Ainda para mais, em pessoa. Ele foi de propósito ao meu escritório, insistiu, não pude dizer que não.
No caminho de casa arquitecta mil e uma razão para não assistir à refeição. Mais uma dor de cabeça, uma febre súbita, talvez do calor, ou talvez o pulso fraco, qualquer coisa.
Ao chegar, depara-se com algo ainda mais terrível que a transtorna verdadeiramente. Seus pais. Rodolfo e Aninhas Brandão desfazem as malas no quarto de hóspedes. Abraçam-na efusivamente, ao que ela corresponde com uma tensão nos maxilares e no peito, sem deixar no entanto de sorrir. Quer saber a razão daquela visita inesperada. O pai envolve-lhe os ombros com o braço, carinhoso. Sorri amplamente.
- O Madeira não nos quis dizer, pois que se tratava de uma surpresa que iria, por certo, deixar-nos felizes. – Diz, olhando para a esposa. – Talvez nos queiras adiantar. Eu e a tua mãe já fizemos apostas. Eu digo que é o neto por que tanto esperamos, ela acha que não, diz que essas coisas sentem-se, e que, como mãe, já devia ter pressentido.
Madalena está absorta. Responde que não, lamenta, mas não. E não sabe do que se trata, tendo ela própria sido surpreendida. Logo hoje, que tem sofrido uns ataques terríveis de afrontamento. A mãe preocupa-se, mas ela sossega-a, dizendo que é do calor excessivo. De seguida pede licença para subir ao quarto. Quer repousar um pouco até à hora da refeição. Deita-se e adormece.
Quando acorda é quase a hora do jantar, e o seu marido toca-lhe a face delicadamente. A princípio abraça-o com grande intensidade, como se despertasse de um coma profundo, mas de imediato o repele, questionando-o sobre o propósito de toda aquela movimentação às escondidas. Toca a testa com as costas da mão, como se medisse a febre. O marido sorri, assegura-lhe que é para o bem de ambos, e que logo, à mesa, saberá. Por ora deve levantar-se, trocar de roupa, pentear o cabelo.
- O Fernandes deve estar a chegar, seria cordial se o recebesses.
Treme toda. O Madeira ergue-se e veste a casaca. Madalena sente ainda o cheiro da traição nas mãos e no cabelo, mas agora já não a incomoda, surge agradável, sedutor. Será que o marido não sente aquele cheiro? Será apenas na sua cabeça que ele existe? Deseja-o já, ao amante, agora, ali mesmo no leito conjugal, como nunca foi capaz de imaginar.
Durante o jantar, ainda que a conversa seja animada, mais uma vez girando em torno das viagens do Fernandes, desta vez com os Brandão a fazerem jus ao tempo em que, também eles, correram a Europa, Madalena mal levanta o olhar do prato, e apenas sorri quando o pai lhe toca no pulso, distraído, longe de notar a distância da filha. À sobremesa, depois de acender um enorme cubano, Madeira comunica finalmente a boa nova: foi nomeado para a embaixada em Paris, partirão dentro de um mês. Por entre o júbilo e os brindes, Madalena e Fernandes trocam olhares ininteligíveis, assustados. E é no meio dos festejos que chega uma mensagem importante para o Madeira. Há problemas com uns ilegais que tentaram desembarcar durante a tarde, é imperativo que vá.
- Irei consigo. – Berra Rodolfo. – Quero ver como trabalham cá por Lisboa.
- Concerteza! – Responde o Madeira. – Terei o maior prazer. – E virando-se para o Fernandes. – Fique, por favor, peço-lhe. Faça companhia às senhoras, fale-lhes mais um pouco das suas viagens. – E dá-lhe uma palmada no ombro.
Depois beija a mulher, sempre cabisbaixa e em silêncio, e sai, acompanhado pelo sogro. Aninhas, quebrando o silêncio que se seguiu, agradece a companhia maravilhosa do Fernandes e sobe ao quarto, pois está exausta, e a idade já não lhe permite passar muito da hora. O rapaz levanta-se e faz uma vénia. Madalena não tira os olhos da mesa. Quando ele volta à cadeira, diz-lhe, sem mais:
- Aguardamos dez minutos e subimos ao meu quarto. – E olhando-o, finalmente. – Quero-o.
Fernandes contrapõe que é um risco desnecessário e infantil, e que não se sentirá à vontade na cama do amigo. Madalena pergunta-lhe se deixa de ser a mulher do amigo quando a possui noutra cama. Ele não responde. Sobem, passados nem cinco minutos.
O odor concubino depressa impregna o ar do quarto. Nus, virados para o tecto, arfam de cansaço. Madalena sente uma gota deslizar pelo rosto. Não é suor. Depois outra, e quando fala já é em soluços.
- Vá, por amor de deus. Vista-se e vá. Depois direi ao meu marido que teve de sair mais cedo.
Fernandes ainda diz qualquer coisa conciliadora, mas vendo que ela está irremediavelmente desconsolada, e temendo acordar a sua mãe, apressa-se e sai de pronto.
Madalena esvai-se em lágrimas, apertando o ventre, como se um veneno a invadisse. Sente-se suja, sente que sujou tudo em seu redor, a casa, o marido, a cama fiel, o ar. Levanta-se e caminha cambaleando na direcção da toilette, após o que, enche a banheira e, entrando nela, fria, mas acolhedora como um desinfectante, segura a lâmina e desfere alguns cortes. Não sente dor, a não ser no peito, onde o coração estremece de saudade não sabe ao certo de quem, mas parece-lhe ser do marido, da voz do Madeira pela manhã, perguntando-lhe como passou a noite, sempre tão atencioso, tão eternamente apaixonado, tão inconsciente da sua ausência.
O ruído da água corrente é apenas uma nuvem de som, um acorde etéreo e distante, e o derradeiro odor que sente já não é o da loucura e do desejo, mas de sangue. Sangue vermelho de paixão.
23 de junho, 2004
COLABORAÇÃO! (23.06.04)
Recebi há dias um convite para participar num outro blogue. Aqui está o resultado do trabalho. Dêem um saltinho até ao Blogue de Cartas e vejam no que deu. Um abraço!
Rui
21 de junho, 2004
ESTÓRIAS (21.06.04)

Pintura de Rita Pardo
Os tempos em que somos felizes
Os tempos em que somos felizes morrem sempre antes de nós.
Houve tempos em que fui feliz, por várias razões, porque era criança, porque a felicidade era um brinquedo novo, porque ignorava quanto podia a vida ser traiçoeira, porque ignorava simplesmente a vida. Hoje, por vezes, sinto vontade de arranjar a fórmula para desaprender, desaprender a andar para me levarem ao colo, desaprender a falar para escutar mais e guardar apenas o que realmente interessa, desaprender a conduzir para poder apreciar a paisagem, desaprender o amor para amar despreocupadamente, sem medo, desaprender a escrever para abrir os livros e ler nas palavras dos escritores as minhas próprias histórias, porque tenho a cabeça cheia de mundos que me ensinaram, mundos que são desilusões, mundos que não são o mundo que era meu antes de aprender.
Desses tempos sobraram coisas boas, que não hão-de morrer enquanto eu for eu. Sobraram imagens, sons, frases, pedaços de tempo que são os tempos em que fui feliz. Parte desses tempos são pessoas, e algumas são especiais porque consigo ver nelas parte de mim, porque nelas mora aquilo que sou para o mundo, aquilo de mim que não me é possível ver: eu.
Lembras-te desses tempos? Tu. Sim, tu aí, que lês as minhas palavras, lembras-te dos tempos em que fomos assim felizes? Sim, ainda somos felizes, mas aquela felicidade era única, já não é a mesma coisa. Lembras-te de me ensinar a andar a cavalo? Eu sempre tive pavor de cavalos, mas tu adoravas cavalos, e eu sabia disso e sorria para te ver feliz. Lembras-te? Lembras-te dos domingos em que me levavas contigo para o Alentejo para conhecer a tua casa nova, e dizias-me, Esta é ainda mais bonita que a outra, esta tem uma janela donde se podem ver os coelhos logo pela manhã. E eu deixava-me guiar por ti, por estradas que nunca tinha visto, por locais que eram apenas letras no mapa e de repente eram terra e árvores e casas e pessoas. Lembras-te disso? E no natal, lembras-te do natal, tu chegavas e trazias as prendas dentro das malas e eu nunca descobria o que trazias para mim. Eu não me esqueci porque ainda sou tudo isso.
Mas cresci, e o natal já não é em casa da avó, porque teve de ser, porque tudo mudou, e a fantasia chegou ao fim. Um dia tudo foi alegre, comiam-se trutas feitas em casa, a árvore de natal era branca e tinha umas fitinhas azuis, vermelhas, douradas, muito fininhas, lembras-te? E as prendas ficavam por baixo, e eu não comia em paz porque as prendas tinham de estar fechadas até à meia-noite, ou pelo menos até às onze e meia. Mas tudo mudou. Nessa altura as cabeceiras da mesa de natal tinham duas pessoas em cada lado, e na televisão dava sempre o Ben-Hur e os Dez Mandamentos, lembras-te? Mas tudo chega ao fim. E um dia o Zé morreu, e na mesa de Natal, mesmo em frente de onde eu costumava sentar-me, o lugar ficou vazio.
As coisas nunca mais foram mágicas. As trutas agora são compradas e a árvore de natal é verde. Ou fui apenas eu que cresci e morreram diante de mim os tempos em que fui feliz?
para a minha tia Esmeralda, a quem devo muito, que fez ontem anos
17 de junho, 2004
ESTÓRIAS (17.06.04)
Vanilla Sky
Maybe… “in another life, when we are both cats”.
Podes existir. Ninguém me garante que não. É mais que provável que o teu dia tenha nascido, que tu tenhas nascido num dia qualquer. Eu próprio nasci, nesse dia absurdo, longe do passado, mais longe ainda do futuro. Sim, porque o dia em que cá chegamos, está mais próximo do anterior do que daquele que se lhe segue. E depois? Se nascemos separados, quantas voltas tem de dar o mundo para que seja reposta a ordem de todas as coisas? E não são muitas, apenas eu e tu. Para sermos dois, para formar um conjunto fiel, apenas é preciso seres tu e eu. Mas é tão difícil alinhar o nosso percurso. Tudo isto que se espalha entre nós, seja perto ou longe, é uma praia, o areal de uma praia, o areal que se prolonga mar adentro. Agora vê, eu posso ser um grão a um palmo de profundidade a doze milhas da duna onde tomas sol, tu, também grão. Se somos areia, somos um mundo, se somos incontáveis como os grãos de areia, então podemos não ser mais que uma hipótese remota de amor.
Talvez não sejas verdade. Alguém me garante o contrário? Talvez não tenhas chegado nunca a saber o que é um dia. Eu – e isto sente-se quando pesamos a impossibilidade de viver – eu não sei se cheguei a nascer, se estou, ainda, a preparar-me para cá chegar. É possível que não existas.
Podes existir de formas amorfas. Podes existir no lado de lá desta folha, ser o nada branco deste meu desejo por escrito. Mas, que loucura! Se chego a adormecer sentindo o teu corpo. Durmo ao relento, embalado por ondas que duram toda a noite, a minha pele na areia, em ti, quem sabe. Perto de ti. Longe de ti. Estar longe é isso mesmo, estar longe. Não é uma ilusão, nem sequer uma desilusão. É apenas a dúvida, o receio de que, fora de mim, fora do que te penso, possas, porventura, ser algo mais remoto ainda que o não poder ver, que o não poder tocar: aquilo que é a verdadeira distância: o não existir.
Se não existes, por favor, diz-me, e eu passo uma borracha sobre o meu nome.
14 de junho, 2004
RIMAS... OU NÃO! (14.06.04)
Poema Autista
mergulhei num lume denso,
trouxe à luz um espectro de escuridão,
e de um arco de reflexos moribundos
furtei os traços da minha silhueta.
cobri o rosto de brilhos pálidos:
nada mais, em mim, foi reluzente.
todas as arestas eu poli,
os cantos gretados, as lascas…
a cor da vida, quis eu, que fosse de esmalte,
os ombros opacos tornados feéricos,
e o peito, frágil e soberbo, mas de cristal.
amputado de glórias, murchei
como uma flor orgulhosa, que morre, isolada [e bela
em jardim de urtigas frescas e reles.
não sei como me suporto tão eu!
hoje, um só instante me ofende,
um ápice me arrelia e enfurece,
porque é a hora que passa,
e insulta a minha derme de alabastro;
rasgos cruéis do arado do tempo.
ah! o meu corpo lavrado como uma horta:
daqui, já tudo se colheu,
até caroços de barro de uma derrocada urbe romana,
até raízes dos antípodas das sementes,
até carcaças rochosas de peixes pré-históricos
de um mar que daqui se enxugou,
como eu, um dia, baço e estalado,
fóssil de uma vida de pedra.
10 de junho, 2004
PORQUE HOJE É DIA... 10 DE JUNHO (10.06.04)
De um momento para o outro, todos os portugueses descobriram que são… portugueses! Não me lembro de ter assistido a tal manifestação de patriotismo. Todos, de norte a sul, estão orgulhosos. Tanto, que é rara a varanda em que não se hasteia o nosso máximo símbolo, ora grande, ora nem tanto, ora de pano, ora de plástico, mas invariavelmente lá está, bailando à brisa cálida do Verão que aí vem.
E qual é o motivo? Saímos do mau momento económico? Estamos unidos em torno dessa causa e empunhamos a bandeira para nos dar coragem? Voltámos a ganhar o prémio Nobel da Literatura? Não? Então? Ah! Pois é, o Euro 2004, a selecção de todos nós, os estádios novos, pois é!
O tema já não é novo, nem novidade. Muito já se disse acerca do que poderia ter sido feito com o dinheiro investido nos estádios e em toda a organização do evento. Muito já se defendeu acerca da boa imagem de Portugal depois do evento. Certo. Não discuto. Mas assusta-me esta vaga de patriotismo-marketing.
Não quero falar sozinho. Por favor, deixem a vossa opinião sobre o assunto. Prometo que será útil, um dia.
Quanto às Palavras Na Lamparina, regressarão à (subjectiva) normalidade na próxima segunda-feira. Até lá, um abraço. Deixo-vos com uma fotografia do paraíso onde tenho estado a estudar e a recuperar forças para as frequências que aí vêm. (prometo dizer-vos onde é, desde que não contem a ninguém. é que não quero que se transforme em mamarracho turístico como tem acontecido com muitos outros locais aqui em redor!)
Rui.
5 de junho, 2004
FIM DE AULAS
Fim de aulas. Uns dias para descansar antes das frequências. A lamparina fica a meio gás. Volto daqui a uma semana. Divirtam-se.
Rui
2 de junho, 2004
ESTÓRIAS (02.06.04)

Mundo em banho-maria
Devo avisar, antes de mais, mas já algo tarde pois já existem comentários nesse sentido, que o texto não é autobiográfico.
Lá em casa media-se a felicidade pela porção de manteiga que cabia a cada um para barrar no pão. Certos dias, quando o meu pai recebia algum dinheiro que lhe deviam ou fazia um ou outro serviço extra, toda a gente comia pão com manteiga. Manteiga em quantidade suficiente para dar sabor ao pão. Comiam os meus irmãos, comia o meu pai, comia a minha mãe e comia eu, e à hora de jantar a conversa era animada, e o meu pai falava do futuro, dizia que o patrão talvez o aumentasse no final do ano, que desta é que viria uma televisão nova, e durante uma hora e meia éramos uma família feliz. Mas nem todos os dias eram assim. Havia vezes em que a minha mãe não comia sequer pão para que os meus irmãos pudessem levar uma fatia cada um para a escola, e o meu pai uma sandes para o dia de trabalho. Eu dizia-lhe que não se preocupasse comigo, que aguentaria bem até ao jantar, e passava as aulas a tentar disfarçar os gritos desesperados dos meus intestinos. Alguns colegas sabiam o que se passava, e da forma menos humilhante possível convidavam-me para comer qualquer coisa com eles.
Um desses colegas era o filho do patrão do meu pai. Eu sabia quem ele era, ele ignorava quem eu fosse. Um dia, à mesa do café, contou-nos uma história. Era sobre a irmã mais nova, que tinha queimado o dedo numa panela a ferver. Ele, assustado, insistiu com a pequena para que mergulhasse o dedo na manteiga, que curaria a queimadura. Quando os pais chegaram a casa e se sentaram para comer, depararam-se com um pequeno orifício na manteiga. Repreenderam ambos os filhos, especialmente o meu colega por ser o mais velho. A manteiga é prejudicial às queimaduras, e além disso é feio andar a meter os dedos na comida das outras pessoas, ralharam. Resultado, o pacote de manteiga foi para o lixo e o meu colega de castigo para o quarto, sem jantar.
Enquanto isso, em minha casa, jantávamos, ou pelo menos deveríamos. O meu pai estava de cabeça perdida. Acabara de fazer as contas das despesas para o mês e o facto era que já não sobrava nada. Estávamos a meio do mês e já nem havia dinheiro para manteiga. Como era costume, sempre que o meu pai fazia contas à vida, era ele quem ficava a dever. Saía-lhe então uma frase que nunca esquecerei. Dizia que um dia destes a vida cobrar-lhe-ia todas as dívidas acumuladas, e terminava injuriando o patrão, que era um homem sem palavra, que há mais de cinco anos que prometia aumentá-lo. Um dia perco a cabeça e vou-me a ele, anunciava. Nunca o fez. O patrão também nunca o aumentou. Não sofreu muito, o meu pai. Passado um ano a vida veio fazer a cobrança. Ficámos por nossa conta. Mas por pouco tempo. A minha mãe também adoeceu e deixou de poder cuidar de nós. A minha irmã foi para o orfanato e eu para a casa dos rapazes, de onde vim a sair poucos meses mais tarde, quando fiz dezoito anos.
Hoje sou eu o pai, não falta manteiga na mesa da minha família e para que a vida me leve terá de ser roubo, e não cobrança. Se sou feliz? Não sei. Mas acho que não. Pelo menos enquanto existirem por aí outras famílias a medir a felicidade pela quantidade de manteiga que podem barrar no pão. Para mim isso significa uma enorme e agoniante queimadura que nem toda a manteiga do mundo seria capaz de sarar.
31 de maio, 2004
RIMAS... OU NÃO! (31.05.04)
uma voz morta ainda no grito,
um gemido roubado à dor,
uma luz que brilha ao sol,
um passeio na noite gelada.
tudo isto são pedaços de mim,
tudo isto são recados,
[vozes]
quase mortas, ainda gemendo,
farol no molhe da noite
[fria]
frio mar onde me afundo em silêncio,
e não sei sequer se quero nadar,
e nem sei já se saberei nadar.
esqueci-me que aprendi,
esqueço-me que fui,
quero esquecer
esqueço-me
esqueço.
29 de maio, 2004
RIMAS... OU NÃO! (29.05.04)
Fiz da vida um recorte,
um retalho de horizontes,
de rios largos, frágeis pontes.
Que foi isto, senão morte?
No espaço de um momento
passou o momento por mim,
passou como sono ruim,
frio, reles, lasso e lento.
Perdi-me na estrada recta
por teimar atalhos de esteta.
Ah! utopia e perfeição.
…oxalá pudera…
…ter-me firme num só gesto,
desprezar tudo o resto
e ter mão em minha mão.
Bom fim de semana para todos
28 de maio, 2004
RIMAS... OU NÃO! (28.05.04)

Verbo Ir
sair daqui, esquecer-me,
perder as frases sem sair magoado,
desaparecer e deixar tudo escrito,
fugir deste quarto, desta caneta,
largar a memória,
despojar-me de ser,
banir-me de julgar,
mergulhar no tempo perdido,
deitar a barriga para o ar.
ir
agora mesmo.
ir
quero abandonar as palavras,
desejo banir o silêncio,
g.r.I.t.a.R.
vão,
«Saiam de mim! Saiam de mim! Não suporto mais.»
26 de maio, 2004
RIMAS... OU NÃO! (26.05.04)

um luar que cheire a ti,
uma manhã longa num abraço,
um beijo de adeus demorado,
que me diz:
«vou por ai!»
um peito aberto torna-se gente,
um amor constante deixa marcas,
um olhar de despedida
nunca pode ser feliz
porque se sente.
...vejo que te vais, sinto-me ficar,
...difuso como um sonho,
...alheio como um reflexo
...vago e desconexo
...que ficou no teu lugar.
25 de maio, 2004
ESTÓRIAS (25.05.04)
Hoje é um dia especial na Lamparina! O Abstracto Concreto ilustrou uma pequena estória minha. A ele um muito obrigado.
Acordem-me, por favor!
«-imagina o que vi hoje no caminho de casa…»
«no caminho de casa encontramos as coisas mais absurdas. o que viste?»
«-um absurdo, pois claro.»
«de que género?»
«-um absurdo híbrido. uma árvorestruz!»
a cara arrepanhou-se num espanto. não era a primeira vez que lhe descrevia bizarrias como aquela.
«e que fizeste? fotografaste-a? para que te acreditem são precisas provas.»
o outro, como que sentido, magoado com os modos desconfiados do parceiro, resmungou.
«-ora! provas. não me interessa provar nada.»
«muito bem. seja! e como era?»
«-essa agora. então, como há-de ser uma árvorestruz?»
o parceiro sacode a melena, aturdido.
«ou muito me engano, ou será algo entre um sobreiro de dois troncos e uma galinha.»
«-um peru!»
«um peru?»
«-sim. pensa no pescoço. é de longo mais parecido.»
«de longo?»
«-sim, fiz um trocadilho.»
«ah!, bom. então, talvez o sobreiro também não se adeqúe.»
«-por que dizes isso?»
«também tenho as minhas ideias. as pernas de uma árvorestruz são mais parecidas com dois pinheiros altos.»
coça o queixo. “sim, tem razão…”
«-tens razão!»
um silêncio.
dois silêncios.
três silêncios.
«não ouves um despertador?»
«-raios! esqueci-me das horas. tenho de ir.»
24 de maio, 2004
RIMAS... OU NÃO! (24.05.04)
O poema de hoje vem acompanhado pela letra de uma música que adoro. Resolvi transcrevê-la por ter sido o fundo musical que me acompanhou enquanto escrevi o poema!
Esperei em fúria pelo Tempo.
Pois o tempo chegou!
Agora afogo-me nele,
desprevenido como um bago de trigo,
duro e seco, sujeito às pedras da mó,
prestes a tornar-se pó,
ceifa de uma guilhotinada seara;
resto de um desejo mal compreendido.

"I Will"
i will
lay me down
in a bunker
underground
i won’t let this happen to my children
meet the real world coming out of your shell
with white elephants
sitting ducks
i will
rise up
little babies eyes eyes eyes eyes
little babies eyes eyes eyes eyes
little babies eyes eyes eyes eyes
little babies eyes eyes eyes
Radiohead - Hail to the thief
23 de maio, 2004
RIMAS... OU NÃO! (23.05.04)
Eu sei que os meus poemas por vezes são estranhos, mas... é o que sai! E o que saiu hoje foi isto...

Se eu disser que sou um Domingo,
quantos dias me restarão até ao fim da semana?
Se disser que sou a última página de um livro,
quanto tempo levarão a fechar-me?
E se jurar que sou uma beata?
Fumar-me-ão até ao fim, ou irão escarnecer-me por rezar o terço?
Cuidado comigo, que sou dois.
E porque será que copo de água vazio se chama, ainda assim, de água?
E se uma garrafa de vinho cheia, não tivesse vinho, mas água?
Garrafa de água. Pois que mais?
Um copo de vinho vazio foi um prazer,
uma garrafa cheia de nada foi um alívio.
Atenção ao beberem-me, não sou líquido!
Se disser que me espanto de olhos fechados,
quem me obrigará a não ser cego?
Se eu puder ver só para dentro, e para fora apalpar,
que dirão da minha pessoa? Louco, insular?
Sou apenas o escuro, uma reserva de sombras,
um estado insone de olhos sem pálpebras.

